O Que Visitar em Lamego: Guia Completo da Cidade Barroca
A maioria das pessoas descobre Lamego por acaso. Vêm ao Douro pelas vinhas, instalam-se no Peso da Régua ou no Pinhão, na margem norte, e depois alguém menciona que existe uma escadaria barroca a quinze minutos do outro lado do rio, com quase setecentos degraus e uma vista sobre todo o vale. Vão lá passar uma tarde. Um número surpreendente deles fica com pena de não lhe ter dado uma noite.
Lamego é o contrapeso tranquilo do Douro — uma pequena cidade episcopal na margem sul, com mais história genuína por metro quadrado do que qualquer outro sítio da região, e uma fracção dos visitantes. Tem uma capela visigótica mais antiga do que quase todas as igrejas de Portugal, um tecto de Sé pintado pelo arquitecto que deu ao Porto a sua torre mais famosa, um castelo onde se entra de graça e uma indústria de espumante que produz garrafas em caves graníticas frescas desde a década de 1890. Este guia cobre o que vale realmente o seu tempo, quanto custa, como chegar a uma cidade sem estação de comboio própria e quanto tempo lhe dedicar.
Onde Fica Lamego e Porque É Tantas Vezes Ignorada?
Lamego situa-se na margem sul do Douro, a cerca de quinze minutos de carro do Peso da Régua, no extremo ocidental da região demarcada. Este simples facto geográfico explica porque tantos viajantes a saltam: a Linha do Douro corre pela margem norte, pelo que Lamego não tem estação. Quem visita de comboio tem de sair na Régua e tomar a decisão deliberada de atravessar o rio. A maioria não o faz.
O resultado é uma cidade de cerca de 25 mil habitantes que se sente genuinamente vivida em vez de encenada para o turismo. Os cafés estão cheios de gente local às onze da manhã. Os mercados de quarta-feira e sábado servem para comprar legumes, não recordações. Se passou uns dias nas zonas mais polidas do vale e quer uma tarde que saiba ao Norte de Portugal verdadeiro, é aqui que a encontra. O nosso guia das sub-regiões vinícolas do Douro explica como este canto ocidental do vale difere das terras mais secas a montante.
O Santuário de Nossa Senhora dos Remédios e os Seus 686 Degraus
É por isto que a maioria das pessoas vem, e merece a fama. O Santuário de Nossa Senhora dos Remédios ergue-se num monte arborizado acima da cidade, e uma escadaria barroca monumental desce em ziguezague ao longo de 686 degraus, entrecortada por patamares, fontes, painéis de azulejo e estátuas de granito. É a segunda escadaria devocional mais famosa de Portugal, depois do Bom Jesus do Monte em Braga, e embora a de Braga seja mais cuidada, a de Lamego é talvez a chegada mais dramática — a cidade abre-se a seus pés durante todo o percurso.
A construção começou em 1750 e arrastou-se, com interrupções, por mais de 150 anos, razão pela qual a escadaria e a igreja no topo não parecem obra de um único risco. A igreja é comparativamente sóbria por dentro; a escadaria é a obra-prima. Os painéis de azulejo azul e branco, o Pátio dos Reis com as suas figuras graníticas e o obelisco merecem ser apreciados com calma, e não percorridos à pressa.
O conselho prático que toda a gente quer: não é obrigatório subir. Uma estrada contorna o monte até um parque de estacionamento junto à igreja no topo, pelo que quem vem de carro — e quem viaja com pessoas para quem 686 degraus seriam um castigo — pode começar no cimo e descer, que é aliás o melhor sentido para as vistas e deixa-o no centro da cidade, onde estão os restaurantes. Se for a subir, conte 20 a 30 minutos em passo tranquilo e leve água no Verão. Não há bilhete de entrada e o recinto está aberto todos os dias.
O santuário é também o palco das Festas de Nossa Senhora dos Remédios, a maior festa religiosa do Douro, que enche a cidade na primeira quinzena de Setembro e culmina por volta do dia 8. Se a sua visita coincidir com essas datas, leia o nosso guia completo das Festas dos Remédios antes de reservar — o alojamento em toda a zona aperta consideravelmente.
A Sé de Lamego e o Tecto de Nasoni
A Sé de Lamego foi fundada no século XII, e a sua torre sineira românica de planta quadrada é a parte mais antiga ainda de pé — o resto foi substancialmente reconstruído nos séculos XVI e XVIII. Entre e olhe para cima. O tecto pintado é obra de Nicolau Nasoni, o arquitecto e pintor italiano que desenhou a Torre dos Clérigos no Porto, e é ilusionismo barroco em pleno: estuque plano pintado de modo a ler-se como arquitectura em altura, aberta ao céu.
A entrada é gratuita. Dedique-lhe vinte minutos e entre no claustro contíguo, calmo, verde e quase sempre vazio. A Sé fica ao pé da escadaria do santuário, pelo que as duas visitas se conjugam naturalmente num só passeio.
O Castelo de Lamego
Acima da Sé, por um emaranhado de ruelas onde compensa perder-se um pouco, está o Castelo de Lamego — uma torre de menagem do século XII e um troço de muralha sobrevivente no ponto mais alto da cidade velha. A entrada é livre, raramente há gente, e a subida à torre oferece a melhor vista ao nível dos telhados que não envolve o santuário. Há também uma notável cisterna medieval abobadada nas imediações. O castelo é gerido em grande medida por voluntários locais, pelo que os horários podem ser menos previsíveis do que os de um monumento estatal; se for importante para o seu plano, encare-o como um bónus e não como um compromisso fixo.
O Museu de Lamego
Se só pagar uma entrada em Lamego, que seja esta. O Museu de Lamego ocupa o antigo Paço Episcopal, um edifício setecentista virado para uma praça sombreada, e é muito melhor do que uma cidade deste tamanho teria o direito de ter. O bilhete ronda os 3 €.
Os dois destaques da colecção são um conjunto de tapeçarias flamengas do século XVI que narram a história de Édipo — grandes, estranhas e lindamente conservadas — e um grupo de painéis pintados saídos da oficina de Vasco Fernandes, o mestre renascentista conhecido por Grão Vasco. Há ainda capelas reconstruídas dentro do museu, vindas de um convento local extinto, com a talha dourada desmontada e remontada peça a peça. Conte uma hora, mais se gostar de pintura. Para um museu muito diferente, centrado na própria indústria do vinho, o Museu do Douro, na Régua, é a visita complementar natural.
São Pedro de Balsemão: Uma das Igrejas Mais Antigas da Península
A três quilómetros a nordeste do centro, num lugarejo junto a um ribeiro, está uma pequena capela habitualmente descrita como a segunda igreja mais antiga da Península Ibérica. Crê-se que a Capela de São Pedro de Balsemão tenha origem visigótica, e o seu interior preserva elementos alto-medievais verdadeiramente raros — colunas coríntias reaproveitadas, arcos de influência ferradura, cantaria esculpida e pormenores moçárabes de um tipo que sobrevive em quase nenhum outro edifício português. Lá dentro está o túmulo do bispo Afonso Pires.
É minúscula e não é um espectáculo como o santuário; o interesse está na sua antiguidade e raridade. A entrada é gratuita. O percurso a pé desde Lamego é agradável e quase todo a descer, por vinhas e um corredor ribeirinho arborizado, mas informe-se localmente antes de partir, pois trata-se de uma capela pequena, com pessoal limitado, que não está garantidamente aberta todo o dia.
Caves da Raposeira: Espumante, Não Vinho do Porto
Eis o que mais surpreende quem visita: a bebida-símbolo de Lamego não é o Vinho do Porto. A cidade fica a altitude suficiente, e é suficientemente fresca, para que em 1890 aqui tenha nascido uma indústria de espumante, e a Raposeira se tenha tornado o nome que os portugueses associam às garrafas de celebração. As Caves da Raposeira, à entrada da cidade, continuam a produzir pelo método clássico — segunda fermentação na garrafa, tal como em Champagne — e organizam visitas guiadas pelas caves subterrâneas frescas, terminando numa prova.
As visitas são baratas para os padrões do enoturismo e genuinamente informativas sobre a produção pelo método tradicional, o que constitui uma mudança de ritmo bem-vinda depois de três dias a provar vinho generoso. Reserve com antecedência em vez de aparecer sem aviso: os horários são limitados e a disponibilidade para quem chega à porta é imprevisível. Se preferir a formação em Vinho do Porto, o nosso guia dos estilos de Vinho do Porto explica o que provar e onde.
O Que Comer em Lamego
Lamego é uma cidade séria em matéria de comida, e vale a pena planear uma refeição em torno das suas duas especialidades.
O presunto de Lamego é o famoso presunto curado e ligeiramente fumado da cidade, feito de porcos criados nas serras em redor e curado no ar frio da montanha. Corta-se fino e come-se tal e qual, normalmente com pão e um copo de tinto. É bom ao ponto de a cidade ser por vezes chamada simplesmente cidade do presunto.
A bôla de Lamego é a outra — um pão achatado e salgado, recheado com esse mesmo presunto ou, por vezes, com outras carnes fumadas, chouriço ou bacalhau. Vende-se ao peso nas padarias, come-se quente ou fria, e é o melhor farnel do Douro. Compre uma fatia antes de subir ao castelo.
Para além destas, espere a cozinha robusta do interior norte: cabrito assado, bacalhau em muitas formas e sopas substanciais. A nossa selecção de dez pratos essenciais do Douro cobre o repertório regional mais alargado.
Um Percurso a Pé de Meio Dia
Tudo o que é central em Lamego se faz a pé, e os pontos de interesse encadeiam-se bem num circuito, se os tomar pela ordem certa. Esta é a versão que sugeriríamos a quem chega a meio da manhã com um único dia.
Comece pelo topo. Vá de carro ou de táxi até ao parque junto ao santuário, veja a igreja e os terraços, e depois desça os 686 degraus — vinte minutos sem pressa, com a cidade a abrir-se à sua frente durante todo o caminho. Chega ao fundo na Avenida, o largo boulevard arborizado que entra no centro.
Dali, a Sé fica a dois minutos a pé, e o museu dá para uma praça mesmo ao lado. Faça os dois e depois suba as ruelas atrás da Sé até ao castelo — é mais íngreme do que parece no mapa, mas curto. Volte a descer para um almoço tardio de presunto e bôla, e termine nas Caves da Raposeira à tarde, se tiver reservado visita, ou siga para Balsemão se preferir a capela silenciosa ao vinho.
Inverta a ordem se chegar de autocarro da Régua sem carro: comece pelo centro, faça primeiro o museu e a Sé, suba a escadaria no fresco do fim da tarde e apanhe um táxi na descida.
Como Chegar a Lamego
De comboio e autocarro. Não há estação em Lamego. Apanhe a Linha do Douro até ao Peso da Régua — cerca de 1h55 desde o Porto em comboio Inter-Regional — e atravesse depois o rio de autocarro ou táxi. Há autocarros a ligar a Régua a Lamego ao longo do dia, e um táxi custa aproximadamente 15 a 25 € e demora uns quinze minutos. Confirme os horários de regresso antes de se comprometer com um fim de tarde na cidade, porque as ligações à noite rareiam. O nosso guia sobre visitar o Douro sem carro aprofunda o panorama dos transportes na região.
De carro. Do Porto, conte cerca de 1h30 pela A4 e A24. Da Régua é um trajecto curto e bem sinalizado, atravessando a ponte. Estacionar é simples para os padrões do Douro — há parque no topo do monte do santuário e estacionamento pago no centro.
Como excursão de um dia. Lamego encaixa bem num dia no Douro, embora as excursões organizadas a partir do Porto raramente a incluam. Se está a ponderar como estruturar um único dia no vale, a nossa comparação das opções de viagem de um dia do Porto ao Douro expõe as vantagens e desvantagens, e o nosso guia completo de transportes cobre todas as vias de acesso à região.
Quanto Tempo Ficar, e Onde
Três a quatro horas chegam para o santuário, a Sé, o castelo e o museu em ritmo civilizado. Junte as Caves da Raposeira e um almoço como deve ser e tem um dia inteiro confortável. Acrescente Balsemão e entra por uma segunda manhã.
Ficar a dormir é a opção subestimada. Lamego é bastante mais barata do que o Pinhão ou a Régua para o mesmo nível de quarto, tem restaurantes de verdade abertos à noite em vez de salas de jantar de hotel, e coloca-o a meia hora das quintas ocidentais. A contrapartida é estar mais longe da paisagem clássica de socalcos a montante. O nosso guia de alojamento em Lamego cobre as opções e, se ainda está a decidir a base, Pinhão versus Régua explica como se comparam as vilas da margem norte.
Quando Visitar
A Primavera e o início do Outono são as melhores alturas, como acontece em toda a região — quentes que baste para as caminhadas que Lamego exige, sem o calor de Julho e Agosto que transforma 686 degraus numa verdadeira provação. Setembro traz as vindimas e as Festas dos Remédios, o que é exactamente o que quer ou exactamente o que quer evitar, consoante a sua tolerância a multidões. O Inverno é frio e sossegado, e a cidade leva-o bem. O nosso guia sazonal do Douro analisa o ano mês a mês.
Perguntas Frequentes
Quantos degraus tem a escadaria de Lamego?
A escadaria barroca do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios tem 686 degraus, subindo a encosta numa série de lanços em ziguezague entrecortados por patamares, fontes e painéis de azulejo. Pode evitar totalmente a subida indo de carro até ao parque junto à igreja, no topo, e descendo a pé.
Vale a pena visitar Lamego?
Sim, sobretudo se procura história em vez de mais vinhas. Em meio dia vê uma das grandes escadarias barrocas de Portugal, uma Sé com tecto pintado por Nasoni, um castelo medieval gratuito e um excelente museu regional — e é muito menos visitada do que as vilas vinhateiras da margem norte, pelo que nada disto parece cheio.
Pode chegar-se a Lamego de comboio?
Não directamente. Lamego não tem estação, porque a Linha do Douro corre na margem oposta do rio. Apanhe o comboio até ao Peso da Régua e atravesse de autocarro ou táxi, o que demora cerca de quinze minutos. Confirme os horários de regresso antes de partir, pois os serviços ao fim do dia são limitados.
Lamego é uma boa base para o Douro?
É uma base com boa relação qualidade-preço. Os quartos costumam ser mais baratos do que no Pinhão ou no Peso da Régua, a cidade tem uma verdadeira oferta de restaurantes à noite e as quintas ocidentais ficam a curta distância. O compromisso é a distância às paisagens de socalcos mais dramáticas a montante, pelo que serve sobretudo quem prefere uma cidade a sério para onde regressar em vez de uma vista de vinha da janela.