Lamego: Cidade da Origem de Portugal e Santuário dos Remédios
Lamego em poucas palavras
Lamego é uma cidade do Douro, no distrito de Viseu, a cerca de 10 km do Peso da Régua e dentro da Região Demarcada do Douro. A cidade tem 11.165 habitantes (2021) e é sede de um município de 165 km², com 18 freguesias e 24.315 habitantes. É também sede da diocese de Lamego, a única diocese portuguesa que não corresponde a uma capital de distrito, o que ajuda a explicar a quantidade de igrejas, conventos e palácios episcopais do centro histórico.
Este guia reúne o essencial para preparar a visita: história, monumentos, natureza, gastronomia, festas, como chegar e onde ficar, com ligações às páginas do portal sobre cada tema.

Um pouco de história
Lamego é uma cidade antiquíssima: remonta ao tempo dos romanos e terá sido a capital da civitas dos Colarni. Foi sede de bispado ainda no período visigótico e foi reconquistada definitivamente aos mouros a 29 de novembro de 1057 por Fernando Magno de Leão. Durante séculos foi um lugar de feira e de comércio muito concorrido; a rua Nova foi zona de mercadores e a cidade teve uma comunidade judaica, cuja sinagoga a tradição situa junto às Portas do Sol, no atual bairro do Castelo.
Em 1835, na reforma administrativa de Mouzinho da Silveira, Lamego chegou a estar prevista como sede de distrito, mas nesse mesmo ano a sede passou para Viseu, por ser uma posição mais central.
As Cortes de Lamego: entre a tradição e a história
Segundo a tradição, foi em Lamego (a Igreja de Santa Maria de Almacave é o local associado) que, por volta de 1143, D. Afonso Henriques foi aclamado primeiro rei de Portugal, nas chamadas Cortes de Lamego. É, porém, uma tradição: a historiografia moderna, na linha de Alexandre Herculano, considera que o documento que descreve essas Cortes, conhecido apenas por uma cópia do século XVII, é apócrifo e que a assembleia nunca se realizou. Mesmo assim, o episódio continua a ser um dos símbolos do passado de Lamego e é evocado nos circuitos turísticos da cidade.
O que ver em Lamego
Os principais monumentos concentram-se no centro histórico: a Sé, o Museu, o Castelo e a Igreja de Almacave ficam a poucas centenas de metros uns dos outros. O Santuário dos Remédios está a cerca de 1 km da Sé (em linha reta) e as Caves da Raposeira a cerca de 1,7 km.
Santuário de Nossa Senhora dos Remédios
O Santuário de Nossa Senhora dos Remédios é o postal de Lamego: um santuário barroco no cimo do monte de Santo Estêvão, ligado à cidade por uma escadaria monumental de 686 degraus, distribuídos por nove lanços e ornamentados com capelas, estátuas, fontes e obeliscos. Está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1984.
A devoção começou numa pequena ermida de Santo Estêvão, de 1361. Em 1568 foi erguida uma nova ermida dedicada a Nossa Senhora dos Remédios e o santuário atual foi começado em 1750, por iniciativa do cónego José Pinto Teixeira, com um projeto que se atribui a Nicolau Nasoni. As torres vieram muito mais tarde (a do lado sul foi começada em 1880 e a do lado norte só ficou concluída em 1905) e a escadaria, iniciada em 1777, terminou já no século XX.
Na subida destaca-se o Pátio dos Reis, formado pela Fonte dos Gigantes, com um obelisco de cerca de 15 metros rodeado por estátuas dos 18 últimos nomes da casa de David; a Fonte da Sereia, onde a escultura de um tritão sobre um golfinho faz lembrar uma sereia; e a monumental Fonte do Pelicano. No adro ficam a cruz monolítica e uma fonte de granito com desenho de Nasoni, de 1738. No interior vale a pena ver o retábulo da capela-mor, os altares de São Joaquim e Santa Ana, os painéis de azulejos e os vitrais.
O parque à volta, a Mata dos Remédios, foi arborizado em 1898, com lago, ponte e gruta, e tem muitas espécies de árvores e recantos de merendas. Pode subir a pé, degrau a degrau, ou de carro, por uma estrada de acesso ao santuário. O dia principal das festas em honra de Nossa Senhora dos Remédios é 8 de setembro, feriado municipal (ver mais abaixo).
Sé Catedral de Lamego
A Sé de Lamego, fundada no século XII, é Monumento Nacional. A torre é românica até à altura dos sinos (séculos XII-XIII) e a parte superior é do século XVI. Na fachada abrem-se três pórticos de arquivoltas múltiplas, trabalhados no granito, obra do gótico final, com influência renascentista nos dois laterais.
O interior tem três naves e, nas abóbadas, as pinturas coloridas de Nicolau Nasoni, executadas entre 1737 e 1738 com passagens do Antigo Testamento. Na Capela do Santíssimo há três altares de talha dourada de João Correia Lopes (por volta de 1753) e um frontal de prata cinzelada do século XVIII. O claustro, concluído em 1557, tem quatro grupos de arcos de transição do gótico para o Renascimento e duas capelas mandadas fazer pelo bispo D. Manuel de Noronha.

Castelo e Cisterna
O Castelo de Lamego ergue-se na parte mais alta da cidade, a 543 metros de altitude, e é Monumento Nacional desde 1910. A torre de menagem, de planta quadrangular e com cerca de vinte metros de altura, e a alcáçova foram erguidas na segunda metade do século XII. Do alto das muralhas avistam-se os rios Coura, Balsemão e Varosa.
Fora das muralhas fica a antiga cisterna de pedra, com cerca de 20 metros de comprimento por 10 de largura e teto abobadado, que reabriu em novembro de 2013 como Centro de Memória. O bairro do Castelo, à volta, é um dos bairros históricos da cidade e é onde, em julho, se realiza a feira medieval.

Museu de Lamego
O Museu de Lamego ocupa o antigo Paço Episcopal, reconstruído na segunda metade do século XVIII. Guarda peças classificadas como Tesouros Nacionais em 2006: um sarcófago medieval com cena de caça, os painéis que Vasco Fernandes (Grão Vasco) pintou entre 1506 e 1511 para a capela-mor da Sé, as tapeçarias flamengas tecidas em Bruxelas na primeira metade do século XVI e painéis de azulejos figurados do século XVII.
Atenção: segundo o site oficial (setembro de 2026), o museu está encerrado para obras de requalificação (PRR). Confirme a reabertura antes de planear a visita.
Igreja de Santa Maria de Almacave
Construída junto a uma necrópole árabe (macab, de onde vem o nome Almacave), é uma igreja românica do século XII, profundamente alterada no século XVII: dessa época são os azulejos de motivos geométricos e vegetalistas, o púlpito e a talha dourada. Do românico original sobrevive o pórtico de arco apontado com quatro arquivoltas. É Monumento Nacional e o local que a tradição associa às Cortes de 1143.
Capela de São Pedro de Balsemão
A Capela de São Pedro de Balsemão, a cerca de 3 km da cidade, junto ao rio Balsemão, é o mais antigo monumento de Lamego. A sua cronologia é discutida: tem sido datada da época visigótica (séculos VI-VII) ou do período de expansão do reino das Astúrias (séculos IX-X). Conserva a planta de três naves, com arcos em semi-ferradura sobre capitéis coríntios romanos reutilizados, e guarda o túmulo gótico do bispo do Porto D. Afonso Pires. Faz parte das Rotas Medievais do Vale do Douro e é Monumento Nacional.

Outras igrejas e conventos
- Igreja e Convento de Santa Cruz: convento começado em 1596, com altares de talha dourada e painéis de azulejos do século XVIII.
- Igreja do Mosteiro das Chagas: mosteiro de clarissas fundado em 1588, com portal renascentista e azulejos do século XVII.
- Igreja do Desterro: fundada em 1640, tem uma rica talha dourada do século XVIII.
- Capela de Nossa Senhora dos Meninos, no bairro da Ponte: construída entre 1551 e 1569, com vinte e cinco pinturas no teto da capela-mor.
- Igreja de São Francisco (convento de 1599), Igreja da Graça (1647), Capela do Espírito Santo e Capela de Nossa Senhora da Esperança (1586).
- Convento de Santo António de Ferreirim, a 8 km do centro pela EN226: a igreja guarda parte dos retábulos dos chamados Mestres de Ferreirim (Cristóvão de Figueiredo, Gregório Lopes e Garcia Fernandes), do início do século XVI.
Casas brasonadas, fontes e bairros históricos
O centro de Lamego está cheio de solares com brasões, como a Casa das Brolhas (1771, Imóvel de Interesse Público, na rua Macário de Castro), a Casa dos Serpas, a Casa dos Vilhenas (hoje Santa Casa da Misericórdia e o seu museu), a Casa das Mores ou a Casa do Espírito Santo, onde funciona o Clube Lamecense desde 1912. O antigo Hospital da Misericórdia é hoje o Teatro Ribeiro Conceição. Entre os fontanários históricos contam-se o Chafariz dos Remédios (a Fonte de Nasoni), a Fonte do Espírito Santo e a Fonte do Desterro.
Vale a pena passear sem pressa pelo bairro do Castelo, pelo bairro da Ponte, pela rua Nova, pela rua de Almacave e pela Praça do Comércio.
Natureza, parques e caminhos
- Mata dos Remédios: o parque do santuário, com veredas, lago, ponte e gruta.
- Parque Isidoro Guedes: construído em 1834 na cerca do extinto Convento dos Gracianos e remodelado em 1999, com café e parque infantil.
- Parque Urbano de Lamego: novo espaço de lazer, desporto e educação ambiental nas margens da ribeira do Coura, junto à Mata dos Remédios.
- Parque Biológico da Serra das Meadas: gerido pela Câmara, entre os 955 e os 1004 metros de altitude, com fauna autóctone.
- Caminho dos Monges: percurso de cerca de 42 km entre Lamego (19 km) e Tarouca (23 km), no vale do Varosa, que segue a presença dos monges de Cister.
- Caminhos de Santiago: Lamego é atravessada pelo Caminho Português Interior de Santiago e pelo Caminho de Torres.
- Circuitos Pedonais Urbanos: dois percursos temáticos, «Lamego Histórico» (Castelo, Cisterna, Igreja de Almacave) e «Lamego Monumental» (Sé, Igreja do Desterro, Igreja de Santa Cruz, Museu), com partida na Loja Interativa de Turismo.
Gastronomia e vinhos
Lamego é conhecida pelos presuntos e pelo cabrito assado com arroz de forno. A cozinha local inclui ainda o coelho assado no forno, as trutas de escabeche, os enchidos e carnes de porco fumadas, a broa de milho, o queijo e as bôlas: pão recheado com presunto, fiambre, vinha d'alhos, frango, atum, sardinha ou bacalhau. A Feira da Bôla realiza-se habitualmente no fim de junho.
Na doçaria destacam-se o biscoito da Teixeira, os pastéis «Lamegos», o pão-de-ló, o doce de ovos, os peixinhos de chila e o leite-creme. A estas juntam-se as frutas dos pomares das encostas: algumas quintas vendem cerejas, pêssegos e maçãs.
Vinhos e espumantes
O concelho faz parte da Região Demarcada do Douro, por isso produz vinho do Porto e vinhos de mesa DOC, e é também terra de espumantes naturais. O prestígio dos vinhos de Lamego remonta ao século XVI e ganhou nova dimensão com as Caves da Raposeira, uma empresa fundada há cerca de 120 anos (segundo o seu site) que produz espumante pelo método clássico, com segunda fermentação em garrafa e as operações de «remuage» e «dégorgement».
As caves ficam a cerca de 1,7 km da Sé. Segundo o site oficial, há visitas guiadas de terça a sábado às 9h30, 10h30, 11h30, 14h30, 15h30 e 16h30 (informações e marcações: +351 254 655 003 ou visitas@caves-raposeira.com). A loja abre de terça a sábado, das 9h às 13h e das 14h às 18h, e fecha aos domingos e feriados. Várias quintas do concelho oferecem também provas de vinho: veja os hotéis e quintas de Lamego.

Festas e feiras ao longo do ano
Datas habituais (confirme sempre no programa de cada edição):
- Semana Santa (Páscoa) e a Queima do Judas de Lalim.
- Feira de Santa Cruz (3 de maio e fim de semana seguinte).
- Feira da Bôla (fim de junho) e Festa de São João (24 de junho).
- Feira Medieval no bairro do Castelo (julho) e Festa de Nossa Senhora dos Aflitos (3.º domingo de julho).
- Festas em honra de Nossa Senhora dos Remédios (do fim de agosto a meados de setembro; o dia principal é 8 de setembro, feriado municipal): a grande romaria da região. Em 2026 decorreram de 21 de agosto a 9 de setembro; veja o evento e o guia da peregrinação.
- Festa de Nossa Senhora dos Meninos (18 a 20 de setembro) e Feira de Santo Estêvão (26 de dezembro).
- Feira semanal: todas as quintas-feiras.
- Entrudo de Lazarim (Carnaval), no concelho.
Outros eventos do portal em Lamego, na edição de 2026: as Festas das Vindimas, o Festival de Vinho do Douro e o ZigurFest.
Roteiro sugerido
Um dia em Lamego
- Manhã: Sé, Igreja de Almacave e Castelo com a Cisterna, tudo a poucas centenas de metros uns dos outros. Se o Museu já tiver reaberto, junte-o à visita da Sé.
- Almoço: presunto, bôla ou cabrito assado.
- Tarde: Santuário dos Remédios e a Mata, a cerca de 1 km da Sé; suba a escadaria a pé e regresse de carro, ou o contrário.
- Final da tarde: visita guiada às Caves da Raposeira, com prova de espumante (de terça a sábado, a última visita é às 16h30).
Prefere um percurso hora a hora, com horários e alternativas para cada dia da semana? Veja Lamego num dia: roteiro a pé.
Dois dias
No segundo dia junte a Capela de São Pedro de Balsemão (3 km), o Convento de Ferreirim (8 km) e uma volta pelas quintas do concelho, ou um passeio até ao Peso da Régua (10 km), de onde partem os cruzeiros no Douro.
Como chegar e circular
- De carro: a A24 (Viseu-Chaves) tem três nós no concelho, um deles em Lamego. Do Porto, o percurso habitual é a A4/IP4 até Vila Real e depois a A24 em direção a Viseu até à saída de Lamego, cerca de 1h30 no total. Da Régua são cerca de 10 km pela EN2. A EN226 liga a Moimenta da Beira e a Tarouca.
- De comboio e autocarro: a linha do Douro chega à Régua; de lá há ligações diárias de autocarro para Lamego. A cidade tem central de camionagem (com ligações a Régua e Tarouca) e duas praças de táxis.
- No centro: o centro histórico faz-se bem a pé; o Santuário exige subida (a pé ou de carro).
Onde ficar em Lamego
Lamego tem hotéis e casas no centro histórico, a poucos minutos a pé da Sé, do Museu e do Castelo, e, nos arredores, quintas e casas de turismo rural no meio das vinhas, mais indicadas para quem viaja de carro. No hub de alojamentos de Lamego pode ver todos, ordenados pela nota dos hóspedes, e no post Alojamento em Lamego encontra uma seleção comentada. Se hesita entre Lamego e a Régua, compare os dois: veja os alojamentos do Peso da Régua.
Perto de Lamego
- Peso da Régua, a 10 km, porta de entrada do Douro e ponto de partida dos cruzeiros no Douro.
- Pinhão, no coração do vale.
- A Rota N222 e o itinerário Douro em 3 dias.
- Ainda: Lamego num dia e Visitar o Douro sem carro.
Perguntas frequentes sobre Lamego
Quantos degraus tem a escadaria dos Remédios?
686 degraus, distribuídos por nove lanços, entre os quais o Pátio dos Reis, com a Fonte dos Gigantes e um obelisco de cerca de 15 metros.
O Museu de Lamego está aberto?
Segundo o site oficial, em setembro de 2026 o museu está encerrado para obras de requalificação (PRR). Confirme a reabertura antes de planear a visita.
Quando são as festas de Nossa Senhora dos Remédios?
Realizam-se do fim de agosto a meados de setembro, com o dia principal a 8 de setembro, feriado municipal. Em 2026 decorreram de 21 de agosto a 9 de setembro.
Foi mesmo em Lamego que Portugal nasceu?
É a tradição das Cortes de Lamego de 1143, associada à Igreja de Almacave, mas os historiadores consideram que essas Cortes não existiram como tal. Lamego é, ainda assim, uma cidade milenar com um dos patrimónios religiosos mais ricos do norte.
Quanto tempo devo dedicar a Lamego?
Um dia chega para os monumentos do centro e o Santuário; com dois dias, junte Balsemão, Ferreirim, as caves e as quintas do concelho.
Lamego é capital de distrito?
Não. É a sede da diocese de Lamego, a única diocese portuguesa que não corresponde a uma capital de distrito.